chacina sf. V. matança (1).
chacinar v.t. Matar, assassinar

chacina sf. V. matança (1).
chacinar v.t. Matar, assassinar
É clichê dizer que é difícil falar sobre si mesma. Procurar palavras, pedir emprestado, esperar uma inspiração vindo de sei lá onde. Eu precisava de uma palavra, uma idéia inicial. Nem que fosse só um adjetivo que me definisse. Ter um adjetivo para si mesmo é bom, é seguro, é como ter um teto sobre a sua cabeça. Ter uma palavra, uma classificação. Talvez até algo que me fizesse parte de um grupo. Mas uma palavra mesmo já diz tanto. E eu precisava de um pouco mais que isso. A fonte 12, a cor preta. Isso soa quase como um grito de desespero. Preciso me definir! De uma vez por todas. Uma definição que seja tão segura e tão exata que não me faça mudar de idéia. Uma coerência. Uma parte de mim que seja passível de fazer sentido de vez em quando. E que eu não mude de idéia no final das contas. Acho que eu poderia fazer uma lista de adjetivos. Depois selecionaria-os parte a parte formando uma ou duas frases. Precisava me estruturar por um dia. Ou talvez eu só mostre a minha parte mais simples.
Versos brancos para o corpo branco
Azuis os olhos
Cereja a boca
Derme, epiderme
Pele
Pele a pele
Pé no chão
Pernas brincam sob o lençol branco
Pêlos poucos
Pêlos claros
Arrepios
Dança de curvas secretas
Verdades à contra-luz
I think that if I could go back in time and do things different, I just wouldn’t. There is no feeling better than moving on.
Eu, instrumento
Teu amor
Em acordes
Teus dedos delicados
Corda em corda
Deságuo em dança
Me toca
Danielle Danielle. Esse era o som que o cavalo fazia quando andava. Danielle. Ela não gostou do som. Danielle Danielle. Mas as patas do cavalo tocavam o chão e faziam Danielle. Ela fez cara feia e disse que não era um cavalo. Perguntei se ela não sentia o som. Danielle era o som da pata do cavalo tocando o chão.
Do mesmo modo que Cecília é um sussurro no ouvido, Clarice, uma gota d’água caindo, Lourdes, a água do chafariz e Natália, um tapa na cara, o cavalo andava e Danielle ecoava.
Se fizéssemos silêncio, verias que é um som bonito. Só que palavra não se vê nem se escuta, se sente. E teu nome é uma palavra. E está entre as mais bonitas. Você não sente, Danielle? Sinto muito – ela disse. E ainda me acusou de sentir demais.
Danielle Danielle. O cavalo se aproxima, balançando sua crina. Montada nele, com seu vestido longo e pomposo, a princesa dos olhos azuis de piscina e cabelos loiros de platina. Danielle, sente as cores? Consegue sentir a rima? Ela ria de mim, mas não pude parar: Te adoro, Dani, minha menina.
Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais, os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e sem pernas, só os tocos… Arre, nem posso figurar minha idéia nisso! Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá erança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dôr não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor…
[Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa.]
Felicity: Ben, wait!
Felicity: I love you.
Ben: You know what, I’m starting to hate that word.
Ben: The way people say it… You and my dad…
Ben: It’s like just saying it would make everything better.
Ben: It doesn’t.
[Felicity]
god forbid love ever leave you empty handed,
i hope you still feel small when you stand beside the ocean,
whenever one door closes i hope one more opens,
promise me that you’ll give faith a fighting chance,
and when you get the choice to sit it out or dance,
i hope you dance.
[I hope you dance. Lee Ann Womack.]
Cheguei a ser plena e até me auto-afirmava alguma coisa. Me valia de uma filosofia barata, que não passavam de algumas palavras numa língua estrangeira. Carpe diem, eu dizia. E então foi o meu horror. Quem colocou o horror na minha frente e me tirou de toda a minha prepotência? Me descobri coisa alguma. Minhas perguntas, minhas perguntas sem resposta. Minhas perguntas que buscam essa coisa, esse horror, que eu não queria, e que eu negava. Não queria aquilo para mim. Mas – no fundo – era só por esse horror que eu vivia. Era essa raiva. Esse medo de não sei o que. Era um algo que ia além da minha religião e da minha psicologia. Era a minha redenção primeira. Esse meu horror sempre vigente. Me esperando, querendo me pegar de surpresa. Querendo me acordar de um pesadelo de queda. Isso. Isso que tira o gosto das coisas. Essa solidão que quer voz, que quer barulho. Quer alguma coisa que nos foi roubada. Essa vontade i-rre-cu-pe-rável. Essa saudade.